O que a saída da Ford diz sobre futuro das viagens corporativas no País

Na última segunda-feira (11), a Ford anunciou o fechamento de todas as suas fábricas no Brasil, encerrando a produção de automóveis no País. A montadora continuará atendendo clientes na América do Sul por meio de veículos fabricados na Argentina, Uruguai e outros países.

 

De acordo com a Fiesp, este movimento precisa ser olhado com atenção. A entidade tem alertado sobre a necessidade de se implementar uma agenda que reduza o custo Brasil, melhore o ambiente de negócios e aumente a competitividade dos produtos brasileiros. A alta carga tributária brasileira faz diferença na hora da tomada de decisões. O custo de cada automóvel produzido aqui, por exemplo, dobra apenas por conta dos impostos. Por isso é necessário criar reformas estruturais, baixar impostos e melhorar a competitividade da economia para atrair investimentos e gerar empregos no País.

A decisão impacta diretamente nas cadeias produtivas relacionadas à empresa, mas também gera ruídos em outros setores. Como fica o mercado de viagens e eventos corporativos com a saída da Ford, por exemplo? Será que outras grandes empresas seguirão a montadora e reduzirão sua atuação no Brasil? A reestruturação necessária da maioria das empresas vai impactar de que forma o setor de viagens e eventos? A previsão de que um terço das viagens corporativas aéreas não voltará será realidade no Brasil?

 

 

“Claro que há um impacto, mas acredito que teremos também um aquecimento do mercado automobilístico de uma certa forma. Passados dez meses da pandemia, muitas pessoas se mostraram interessadas em comprar carros. Acredito que teremos outras empresas que irão repor esse mercado de produção. Talvez não manter em 100%, mas do ponto de vista de viagens, dado que a montadora já havia reduzindo bastante o investimento em deslocamentos. As novas companhias que substituírem investirão em plantas e em viagens de suas equipes e isso será bom. O que ainda não sabemos é como essas corporações vão reagir quanto a colocar seus funcionários para viajar”, analisa o presidente executivo da Abracorp, Gervasio Tanabe.

 

O anúncio da saída da montadora norte-americana veio como um susto, mas apresenta também um novo cenário de outras fábricas que virão. Segundo Tanabe, o mercado brasileiro é altamente competitivo do ponto de vista do consumidor e isso ajuda a atrair empresas. Há um impacto principalmente para quem hoje trabalha, mas isso poderá ser parcialmente resposto por um novo player investindo na produção de carros de passeio, por exemplo, o que a Ford já não estava fazendo.

 

 

Não foi um fator isolado que levou a montadora a sair do País, porém creio que outras empresas provavelmente seguirão o mesmo caminho por conta do famoso custo Brasil e instabilidade política e econômica", aponta o CEO e fundador da Loureiro Consultores, Fernão Loureiro. "Outra questão é também a mudança de hábitos da população. A Ford, por exemplo, já estava perdendo vendas e muito por conta disso. As gerações mais novas sequer tiram carta de motorista, a locação de veículos está em alta, então, a venda de carros já estava diminuindo no geral, além de a concorrência no setor ser muito grande”, analisa Fernão Loureiro.

 

IMPACTO NAS VIAGENS E EVENTOS


Com a saída da Ford do País e pelo menos 6 mil funcionários demitidos, é de se imaginar que haverá um impacto nas viagens e eventos corporativos. O investimento de milhões por ano – mesmo que em 2020 já pudesse estar em somente 10% – passa a não existir mais. O risco maior, no entanto, é se outras empresas adotarem a mesma estratégia de fechar as operações no Brasil.

 

"Toda vez que temos um fechamento de fábrica ou negócio que sai do Brasil, temos impacto em business travel. Acredito que neste segmento ainda teremos muitas empresas que estarão em fusão com outros ou mesmo internamente. Por exemplo, soube que a Coca-Cola está reestruturando seus escritórios das Américas e muitos mais episódios destes virão por conta do impacto da pandemia de covid-19", exemplifica a sócia-diretora da Academia de Viagens Corporativas, Viviânne Martins.

 

Já Loureiro prevê uma recolocação de posições em empresas. “Acredito que desses 6 mil colaboradores dispensados, provavelmente uns 3 mil se recolocarão no mercado e possivelmente se tornarão viajantes corporativos e participantes de eventos. Por isso, será um investimento que acabará sendo reabsorvido por outras companhias."

Outra questão, e que não está diretamente relacionada à montadora, é também a decisão que as corporações de modo geral tomarão após a implementação das vacinas contra a covid-19. Como será a conduta das empresas? Elas continuarão em home office? Tudo isso impactará na economia como um todo - e nas viagens.

 

“Temos de ter uma política clara e mais sólida em relação ao combate ao coronavírus, com medidas de lockdown e aglomeração bem esclarecidas, pois o nosso setor já está preparado. As agências, hotéis, empresas de eventos já estão alinhados desde o início da pandemia, com protocolos para poder dar garantias seguras para que o cliente possa fazer um evento pequeno ou não”, cita Tanabe.

Mesmo que haja uma previsão de que um terço das viagens corporativas de avião não deve retornar, o que é certo é que as viagens a negócios (e tampouco as de lazer) não vão acabar.

 

"Acho muito cedo para termos este número, com certeza as viagens a trabalho vão diminuir, o que caberá no novo tamanho do mercado globalmente. Todos nós aprendemos a resolver vários negócios de maneira remota e, além disso, vem o impacto para muitos segmentos por conta de redução de budget e sabemos que historicamente este é um budget sensível a cortes. Por outro lado, somos serem gregários, gostamos de encontrar, relacionar, estar juntos. E nada substitui o contato pessoal", diz Viviânne.

 

SUBSTITUTOS


Uma perda como a da Ford, que estava há mais de 100 anos no Brasil, acaba abrindo espaço para que novas empresas e segmentos ocupem seu lugar. Para o presidente executivo da Abracorp, novos players do mesmo setor virão para o País. O espaço dela será ocupado por outras, talvez em uma proporção menor, mas isso acontecerá.

 

“Temos algo muito importante para qualquer companhia, que é a questão do consumo. São 210 milhões de habitantes ávidos para consumir. No caso da fabricante dos EUA temos de entender que havia um plano desenhado, que não foi a pandemia que fez isso acontecer.”

Há também o movimento natural da economia, a transformação do mercado de trabalho e da mão de obra. É importante ter em mente que todo mundo será reaproveitado em algum momento, seja em outras tarefas ou funções, mas é necessário se reinventar.

 

“A Ford sai, mas também poderá vir outra empresa de outro setor, talvez, mais voltada para tecnologia, prestação de serviços, e as pessoas poderão ser aproveitadas na linha de frente. Mas também caberá a elas desenvolver novas habilidades e aprender novas skills. É uma troca”, pontua Loureiro.

 

E OS POLOS?


Cidades onde as fábricas estavam localizadas, como Camaçari, na Bahia, acabam sendo prejudicadas, já que dependiam de grandes empresas e construíram todo um ambiente em torno delas. Como esses polos podem substituir essa fonte de renda agora perdida? Criatividade, ter um plano B e não se acomodar são alguns dos fatores.

“As prefeituras e governos têm de, na minha opinião, rodar o mundo atrás de companhias para vir para as cidades em questão. Ter uma postura agressiva para fazer o desenvolvimento da região. Camaçari hoje já tem polo instalado, é um ponto favorável e tende a conseguir substituir parcialmente isso. É preciso ser criativo e ir atrás de oportunidades. Um destino também não pode focar em um único segmento de negócio, pois, se houver uma crise, acabará dependendo só dele. É necessário ter um portfólio um pouco amplo para poder ter vazão”, afirma Tanabe.

 

Fernão Loureiro é da mesma opinião. De que é preciso ter uma alternativa, buscar investir em outras atividades, provavelmente voltadas à prestação de serviço, e até mesmo no desenvolvimento de atividade turística.

“Camaçari, por exemplo, poderia construir um centro e eventos, já que é próximo de Salvador. Buscar um investimento para construir este espaço e trazer eventos corporativos e substituir um pouco essa geração de impostos e empregos que a Ford trazia. Pensando em outras cidades, pensaria em desenvolver uma marca, talvez criar um festival de cinema ao ar livre, algo que gerasse um fluxo constante e permanente de pessoas e que não dependa de sazonalidade”, finaliza.

 

 

18/01/2021

 

Fonte: https://www.panrotas.com.br/viagens-corporativas/mercado/2021/01/o-que-a-saida-da-ford-diz-sobre-futuro-das-viagens-corporativas-no-pais_179088.html


Compartilhe